12.3.20

FOLHA DE SALA | amor -próprio | Ana Vidigal | Espaço 531/ Galeria Fernando Santos

Amor –próprio

Proeminência,.
Das primeiras vezes que voltei só a pintar pensei: é coisa de dentro. E sei que de dentro podia ser traição ou ciúme, faca no estômago ou noite de insónia. Eram definitivamente recados de amor. Coisas.
Ela, a pintura lá saberá o porquê destas coisas, a mim só me interessa aceitar a missiva, guardar com o gozo de não partilhar por palavras. Tudo pour le plaisir des yeux , sem vergonha e sem pudor.

Sempre senti a dualidade.

Reparei sempre nas outras coisas, os desenhos e as colagens antes da tinta. Às vezes fico na dúvida se lhes chamo desenhos, se lhes chamo pinturas tal não é a confusão entre cola e grafite e muita papelada. Técnica mista resolve o assunto. Mas a tela lá saberá como chamar-lhe e ainda um dia lhe vou perguntar como gostará que eu lhe chame, mas isso agora não interessa, nem a mim nem à tela, pois só usei tinta e papel.

As paredes  fecham o lugar, e os lugares da casa funcionam como círculos tangentes (coisa de colagens, pinturas ou técnicas mistas passadas) e a luz passa pelas janelas rasgadas de alto a baixo.
As coisas mudam de lugar – menos o galo de louça  na prateleira mais alta – os dias passam elegantes e violentos, por vezes animalescos por vezes excêntricos sempre corajosos, como corajoso é o ato de pincelar em cima da memória, dando cabo dela.
Sinto por vezes uma espécie de punição pelo prazer de fazer,  um arranca corações com a secreta nostalgia do prazer tirado a ferros.

Agora não me apetece dizer mais nada

 Mas ela diz :

“Havia dias assim, em que ela compreendia tão bem e via tanto que terminava numa embriaguez suave e tonta, quase ansiosa, como se as suas percepções sem pensamentos arrastassem-na em brilhante e doce turbilhão para onde, para onde...”
Clarice Lispector, in O Lustre, pag 64


Andorinhas e morcegos disputam o céu da minha janela. Nos fins de tarde quando começa a aquecer, o ferro da varanda parece brasa. Já não fumo ali. Já não fumo em lado nenhum, mas continuo a ter o habito de intervalar à varanda como se fosse “smokar”. Os hábitos, mais do que os vícios são muito difíceis de perder. Andorinhas e morcegos disputam o céu da minha janela e eu voltei a pintar.

Agora é que não me apetece mesmo dizer mais nada

                                                                                                           Ana vidigal
                                                       

 Fevereiro de 2020


AMOR - PRÓPRIO | Ana Vidigal | Espaço 531/ Galeria Fernando Santos | 14.03.2020


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22.6.19

Ana Vidigal | SAL NOS OLHOS | Galeria Diferença



É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade

Ana Vidigal é uma contadora de histórias. Relatos vários de afinidade e afeição, memórias que transportam consigo o traço da artista, que reflectem os seus ideais. Muitas sobre o tempo, outras sobre os tempos em nós. Conexões de pessoas, lugares, cheiros e momentos. Como é natural para quem possui tais habilidades, os enredos cruzam-se e abrem caminho a novas narrativas dentro de um enquadramento maior.

Mas é mais que isso: são histórias necessárias. São a primeira pessoa de quem viu a sua liberdade chegar por meio de uma revolução. Ana fala-me de tempos que não vivi. De um Portugal tradicionalista depois de anos de ditadura e uma guerra colonial a dar os primeiros passos numa eventual abertura, com novos mundos e direitos por reivindicar. Tempos onde se tomou certas liberdades como garantias e acreditou em dias melhores. Tempos de “Primaveras”, cada com as suas reverberações. E, nesta medida, haverá arquivo que nos chegue como a história oral? A proximidade possibilita a empatia e, a empatia confere proximidade. E tal é importante interiorizar quando dizem que a história “repete-se”, “repete-se sempre” [Hegel]. Tal é urgente porque ainda temos longas trilhas por percorrer, e outras por fazer permanecer.

As obras de Vidigal também são contadoras de histórias. Não apenas no plano formal, através da colagem, pintura e da plasticidade inerente à manualidade da sua metodologia mas, sobretudo, pela narrativa que cada elemento contêm e o torna tão pessoal. Eles encerram em si fragmentos, lembranças do passado, objectos herdados, dados ou encontrados, recortes ou capadas de jornais, cartoons, páginas de livros. Um processo meticuloso de adição de signos e cruzamento de enredos, à semelhança do atelier onde trabalha: espaço vivo de acumulações. Pequenos recipientes, arquivos, gavetas e tesourinhas em divisões grandes ou maiores. Lugares de acondicionamentos, repositório de instantes. Também o espaço de trabalho são ideias, histórias, em potência. Prontas a ser (re)descobertas.

Enfim, as acumulações, os recortes, as histórias, as caixas: tudo peças de um puzzle que se atraem, e que a artista recria habilmente em novas linguagens, gestos, obras. Num processo de constante revelação e omissão, quer pelo uso da palavra como da imagem muita vezes rasurada ou sobreposta. Uma praxis que traz ao de cima um passado que se mistura com o presente e projecta no futuro. Como o fluxo da vida, em permanente transformação, em constante implicância, numa cadência de relações com sentidos imprevistos.

Sal nos olhos, exposição individual na galeria Diferença, é fruto de tudo isso. É reflexo de um olhar atento, que arde de tanto ver. Como o sal arde nos olhos. As obras apresentadas resgatam, naturalmente, as inquietações da artista numa dimensão política dominante, potencializada por títulos cuidadosamente engendrados. Por um lado períodos de liberalização política e a preponderância da juventude nestes processos, por outro a banalização da posse de armas, criminalidade e influência do seu mercado. A “sujidade” ou precariedade nas raquetes de ping pong ironiza uma nação em incerteza. Toda uma cultura sedutora do falso, do simulado, do plástico ou descartável. Uma amálgama de referências como os dias que vivemos, que convidam a analisar temas de uma dimensão emergente, a sair da apatia. Principalmente porque nem tudo está assim tão “harmonioso”.

Considerar se viveremos na iminência de um presente cujas incertezas ecoam divergências esquecidas do passado e memórias abortadas de futuro. Escolher quais as histórias que queremos contar. Ter essa liberdade e ter outras “narrativas”, mais perspectivas, novas vozes e formas de traduzir o mundo.


Carolina Trigueiros, 2019