1.9.18

MEMÓRIAS FAMILIARES E MEMÓRIAS PÚBLICAS: CAMPOS DE BATALHA, por Roberto Vecchi

MEMÓRIAS FAMILIARES
MEMÓRIAS PÚBLICAS:
CAMPOS DE BATALHA

Roberto Vecchi



A literatura – e a literatura portuguesa não é uma exceção – abre fendas profundas dentro de mundos insondáveis como o das memórias e das relações de família. Um dos arquivos mais complexos é constituído pela resistente e escorregadia memória familiar. É como um antídoto à perda total do passado. O que se guarda no espaço íntimo e privado são imagens efetivas ou simbólicas de vivências pessoais, de experiências agradáveis ou dolorosas. A sua evocação remete sempre para a relação discursiva e vivencial, afetiva e familiar entre gerações, guardada e alimentada na esfera doméstica onde os gestos, os afetos, os símbolos, são até mais importantes do que a ordem e o fundamento do discurso.

Como já a filosofia antiga tinha percebido, o domínio da casa é separado do domínio da cidade e da comunidade. É por isso que, perante passados incertos e desbotados, numa fase crítica para as testemunhas como a atual – que constituem um grupo sempre mais exíguo e destinado mais cedo ou mais tarde  a apagar-se – é importante refletir sobre os modos em que a memória individual ou familiar se pode converter numa memória coletiva e pública. Como se a casa pudesse, em suma, abrir-se para a cidade, transcendendo os seus limites privados.

A despersonalização do passado – numa época de subjetivização máxima e macroscópica da experiência, como a atual onde a relação direta com o passado é garantida pelo papel da testemunha ocular – é a premissa da sua possível inscrição dentro de um registo coletivo mais amplo, rumo à construção de uma visão do passado menos singular e mais comum. O problema de facto é como penetrar no emaranhado sensível feito de subjetividades, afetos, gestos, conflitos que caraterizam as relações familiares. A importância deste lugar opaco da casa é fundamental porque é nele que ocorre uma significativa transferência, voluntária e involuntária, de memória pessoal e, de transmissão de recordações individuais que se abrem para uma fruição mais ampla.

Também é preciso constatar que esta transmissão não é documental  e objetiva. Confunde-se com elementos e interferências externos oriundos de outras fontes, outras versões, outras imagens, que  exercem uma pressão externa – é o papel dos mídia – e contribuem para alterar e plasmar imagens porosas em que os elementos mediados das vivências diretas, confessadas no espaço familiar, se confundem com a imaginação e o senso comum.

Uma definição imediata de arte ajuda a compreender uma conexão profunda que se pode instaurar com a “arte da memória” familiar: a arte é o território onde a esfera  íntima do pessoal e do privado se torna possibilidade de fruição por parte dos outros através da obra como facto esteticamente constituído. Na obra de arte, o que ocorre é a transmissão de um conteúdo pessoal ou íntimo ou até inconfessado e a sua receção cria um canal inesperado – estético mais do que comunicativo – impessoal. Um filósofo, Jacques Rancière, ao definir as relações entre política e estética, elabora o conceito de “partilha do sensível” como uma combinação que une e separa partes singulares e exclusivas e um comum que se partilha.

Esta definição esclarece o funcionamento da arte sobretudo em função de um duplo regime, o privado e singular e a sua combinação com o público da partilha. Observar-se-á que a literatura funciona por analogia: converte sistematicamente o privado em público. A escrita é a epiderme que põe em contacto estreito os sentimentos privados com a partilha mais aberta através da leitura.

Para afirmar uma generalidade óbvia, o arquivo da literatura portuguesa transborda de exemplos que mostram a tradução das memórias familiares em facto público possível e portanto acessível. Ficamos aqui com dois casos gravados na memória do século XX português. O primeiro é uma crónica de António Lobo Antunes, “078902630H+” doTerceiro Livro de Crónicas. A cena primária do trauma da guerra colonial vista e testemunhada prorrompe como um jorro excessivo de imagens: “a literatura que se foda”. Só no desfecho, com o desafio lançado – “Completem esta crónica, vocês, os que cá ficam 078902630H+. Filha” – é que se abre o espaço para a transmissão da memória que é partilha e herança e, ao exibir a sua cortante oclusão, se transmite entregando a tarefa para a geração seguinte.

Um romance que mostra a complexidade da exposição da memória familiar é Deixem falar as pedras, de David Machado. Três gerações confrontam-se e produzem cada uma a sua memória em conflito. Um avô preso pela PIDE e que sofreu as violências da história atormentada de Portugal no século XX deixa uma memória que o neto procura assumir, meio século depois. Em jogo, um amor perdido mas nunca esquecido, uma verdade que sempre escapa e não se fixa. As versões que se confrontam sobre o passado, inclusive dentro da própria família, divergem e não se recompõem. São desencontros que a narrativa consegue mostrar e acabam por se converter num objeto de reflexão sobre as perdas e as deformações do passado. As cicatrizes do avô, a testemunha (“Tu não viste as cicatrizes? Claro que vi as cicatrizes. E então? Vais dizer que também não são verdade?”), mostram rastos do corpo cuja decifração é problemática. Ou afetivamente mediada. No entanto, é a literatura que proporciona uma partilha de elementos próprios que nos aproxima de um passado impróprio, de outro modo em risco de extinção. Pela escrita a sua memória  pode-se tornar legível e aberta também a nós, leitores e estranhos, garantindo alguma transmissão mesmo que problemática, parcial e subjetiva: “Por agora esta é a minha história”.


 
Roberto Vecchi é professor catedrático de Literatura Portuguesa e Brasileira e diretor do Departamento de Línguas Literatura e Culturas Modernas da Universidade de Bolonha. Entre as obras mais recentes, com Vincenzo Russo, La letteratura portoghese. I testi e le idee (2017).

6.7.18

ARTE SANTANDER 2018 | Galeria Espacio Minimo | Ana Vidigal | Solo Project

ANA VIDIGAL
Pandora 2014
Técnica Mixta / Collage
222 x 300 x 33 CM


ANA VIDIGAL con el proyecto Memoria

ANA VIDIGAL (Lisboa, 1960) habla, a través de sus obras en collage, pintura, ensamblaje e instalación, acerca del tiempo, de la memoria. Los utiliza como procesos de descontextualización y reconfiguración de imágenes retiradas de diversas fuentes, explorando los valores sociales, políticos, e incluso de memorias que ellos transportan.
 El proyecto para ARTE SANTANDER 2018 estará compuesto por una selección de obras que abordan éstas ideas.
 La instalación Pandora (2014) es una pieza confeccionada a través de revistas rescatadas Art Forum de los años 80, que la envuelve por completo, dejando, a modo de homenaje, visible el nombre de algunos artistas contemporáneos. Estas obras que se hacen de “retazos”, son fragmentos de cuadernos, revistas, y documentación recogidas por la artista durante años, pedazos que cataloga, que arregla en cajas con frases informativas escritas en la tapa que alertan de su interior, y que pueden o no ser abiertas en un futuro próximo. La elección es sólo de cada uno. La elección puede ser la de cambiar el interior de alguna de esas cajas a otras cajas, partes integrantes de un extenso archivo vertical con paredes hechas de revistas de arte.
Del mismo modo, las pequeñas obras de la serie Mentirillas (2016), utilizan imágenes y textos encontrados, casi como objetos olvidados que modifica y recrea destapando únicamente aquellas partes que más la interesan, y creando una historia nueva a través de ellos. Una vez más, leer lo que está escrito en cada uno de ellos es importante. Hay un juego irónico entre la parte formal y la leyenda. Siempre es un juego… entre lo que nos cuenta la historia, lo que la artista dice y lo que vendrá a contar el espectador sobre lo que vio.


18.5.18

ARCO LISBOA 2018 | GALERIA ESPACIO MIMIMO, "Take all away from me, but leave me ecstasy”

Take all away from me, but leave me ecstasy”
2018
141 X 162


GALERIA ESPACIO MINIMO, ARCO LISBOA 2018


Chá Li - Cungo
2018
Tec -mista s/papel
52 X 39 cm

Thé Secret d’Himalaya
2018
Tec -mista s/ papel
39 X 52 cm


Chá Gorreana
2018 
Tec- mista s/papel
52 X 39 c

O QUE PODE A ARTE - 50 anos do Maio de 68 | ATELIER MUSEU JÚLIO POMAR

Ana Vidigal
"Très vite dans ma vie il a été trop tard"
2018
mixed media
330 x 1214 cm


21.3.18

DRAWING NOW ART FAIR, GALERIA BAGINSKI | booth B14 | 21 - 25 MAR | PARIS ~1

(montagem)



The twelve edition of DRAWING NOW Art Fair takes place at the Carreau du Temple, in the heart of Paris, from Thursday, March 22nd to Sunday, March 25th, 2018.