18.3.26

O Departamento de Estudos das Bibliotecas | Costas com Costas - Biblioteca de Ana Vidigal + Irene Flunser Pimentel





Esta edição do departamento parte de uma história doméstica: duas bibliotecas, duas formas de organizar o mundo, dois sistemas de pensamento que coexistem há mais de dezoito anos sem nunca se fundirem – de Costas com Costas. Separadas geograficamente, as bibliotecas de Ana Vidigal e Irene Flunser Pimentel revelam gostos, métodos e obsessões quase opostos. As metáforas que a própria dupla usa para se descrever — a mulher-a-dias e o guarda-noturno — tornam essa diferença evidente. Nunca trocaram livros; não há um único exemplar que pertença a ambas. Sem contaminação aparente, agora encontram-se obrigadas à proximidade. Há cerca de quatro meses, devido a obras na sua casa, Irene mudou-se temporariamente para casa de Ana. A convivência tornou-se inevitável, mas não houve migração de bibliotecas. Os livros permaneceram nos seus lugares de origem. Ainda assim, Irene continuou a adquirir volumes: cerca de trinta acumulam-se agora num canto do corredor, empilhados em pequenos montes no chão. Não entram no quarto, não se instalam na sala, não atravessam o atelier de Ana. A montagem de Costas com Costas assume essa diferença: as prateleiras do armário que acolhem as duas bibliotecas respeitam a organização própria de cada uma, mantendo intactos os seus territórios. 

Ana vive há mais de quatro décadas no mesmo prédio, junto à Feira da Ladra, que funciona como um vasto depósito de imagens a céu aberto. Aí recolhe fotografias e revistas, muitas dos anos 60, que mais tarde incorpora nas suas pinturas através de um laborioso processo de colagem. Não sendo historiadora, é uma arquivista singular de sobrevivências visuais, visível no modo como preserva, ordena e reinscreve essas formas na sua prática pictórica.

É na sua coleção que surgem livros de receitas e guias de viagem, que testemunham territórios comuns às duas. Campos partilhados, mas arquivados apenas por Ana, que acumula esses volumes e os torna memória material de uma experiência comum — talvez ainda destinada a reaparecer numa pintura.

Na biblioteca de Irene predominam volumes académicos, edições de referência e livros em várias línguas que ecoam percursos familiares e geográficos. São fontes, provas e contrapontos que sustentam anos de investigação. A seleção aqui apresentada resulta, contudo, de um acaso: devido às obras, a biblioteca encontra-se empacotada e os livros expostos provêm da escolha de uma única caixa. Apesar das aparentes incompatibilidades, ambas operam a partir do passado. Ana produz formas a partir de imagens que emergem por acumulação e montagem; Irene constrói a história na interpretação de vestígios. Entre o rigor da investigação histórica e a liberdade do atelier, estas duas bibliotecas revelam modos distintos — e surpreendentemente complementares — de habitar o mundo.Costas com Costas é, assim, simultaneamente, arquivo e ficção: duas maneiras de organizar a memória e de trabalhar com o tempo passado que não se reconciliam, mas permanecem numa tensão produtiva.

Texto de Benedita Pestana e Francisca Portugal