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9.12.15

(Lembro-me que parámos em Cachoeira do Itapemirim) | Nunca percebi se amei a pessoa que me colocou nas mãos um livro de Clarice aos vinte e três anos porque a amava ou simplesmente pela brutalidade do ato, ou seja ler de um fôlego “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres” numa viagem noturna entre Vitória e o Rio de Janeiro. Clarice morreu a 9 de Dezembro de 1977. Sobre ela escrevi mais tarde: “, estando tão ocupada:” Corpo pegajoso, de calções azuis e t-shirt branca. Copacabana. Cheguei hoje de manhã de Vitória. Não dormi. Havaianas nos pés. Está um calor insuportável, o Inverno aqui é assim. Corpo pegajoso. Ela deu-me um livro de Clarice Lispector. Chama-se Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Começa com uma vírgula. Nunca tinha lido nenhum livro começado por uma vírgula (e no fim, dois pontos). Li-o de um fôlego. E estou zonza. Corpo pegajoso, cabeça zonza. Amanhã faço vinte e três anos e sei que ela (…) Rio de Janeiro 5 de Agosto de 1983 O resto do meu diário não interessa. Pinto, não sei fazer mais nada. Na minha pintura utilizo colagens. Também colo/escrevo textos. São geralmente textos de outros. Quando escrevo coisas minhas também uso aspas. Evita muita pergunta. Tenho por vezes ataques de pânico durante a execução de uma tela. Sei por instinto que não está acabada, mas paraliso. A pintura é de pratica solitária e a “solidão é uma coisa que nos engole” – aqui está um bom exemplo do que faço na pintura. Quando chego a um impasse vou buscar um texto. Acho que nunca utilizei na pintura frases de Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Mas sei que muitas vezes sou Lóri, (como fui Lóri naquele Inverno quente do Rio de Janeiro) e como Lóri vou aprendendo a ser paciente. A ficar pronta para poder apanhar o momento. Ser Lóri é ter prazer sem culpa e a pintura dá-me muito prazer. Porque nada do que está antes interessa, como não interessa nada do que vem depois. Na pintura, como nas histórias de amor há que ser lúcida, mesmo que o corpo esteja pegajoso e a cabeça zonza. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres é uma obra fundamental no meu trabalho, pelo momento em que foi dado, pelo momento em que foi lido, pelo momento em que é necessário. Foi com ele que aprendi a saber com prazer, não perder o momento. Escrevo isto a 10 de Dezembro de 2008. Clarisse Lispector, que como eu gostava de fumar na cama, faria hoje 88 anos.


28.9.15

" Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme. - Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar? Ele foi simples: - Sim, já beijei antes uma mulher. - Quem era ela? perguntou com dor. Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer. O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir - era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros. E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca. E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engulia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo. A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava. E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos. Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando. O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos estava... o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada. O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos. De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos. Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água. E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra. Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida... Olhou a estátua nua. Ele a havia beijado. Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido. Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil. Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele... Ele se tornara homem."


22.5.13

(ela no) | meio de tudo, antes em tudo, por tudo | "Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito."


"Como se ela não tivesse suportado sentir o que sentira, desviou subitamente o rosto e olhou uma árvore. Seu coração não bateu no peito, o coração batia oco entre o estômago e os intestinos."


26.4.13

"A maçã no escuro" | ou a minha claridade

"Suspirou com cuidado e finalmente olhou em torno. A noite era de uma grande e escura delicadeza."